durante décadas, as mulheres com mais de 50 anos foram completamente excluídas das campanhas publicitárias ou das marcas de beleza (na verdade, foram excluídas da maioria da publicidade). a indústria da moda manteve-se obcecada não só com padrões de magreza ou beleza que estão muito afastados da realidade, mas também com a juventude. criou a ideia de que beleza e juventude são de algum modo sinónimos.
nos últimos anos, no entanto, temos assistido a uma tendência crescente para modelos mais maduras e influenciadoras mais velhas.

em 2015, a céline lançou uma campanha que se tornou viral, com a autora joan didion, que na altura tinha 80 anos. poucos dias depois, a campanha da saint laurent contou com a cantora e compositora joni mitchell, de 71 anos. ambas as campanhas foram recebidas com entusiasmo pelo público.

estas campanhas foram seguidas por várias outras, como a campanha de 2021 da saint lauren com a sempre incrível catherine deneuve, deslumbrante num casaco trench de vinil aos 77 anos. mais recentemente, vimos a campanha da massimo dutti com charlotte rampling, 77 anos, com grandes óculos de sol, ou marry berry para a burberrys, ambas com um estilo fantástico e chique. a the row apresentou em janeiro a sua mais recente coleção pré-outono, e em vez das habituais modelos jovens, vimos a guru da beleza e ícone de estilo linda rodin, de 65 anos.
idade, rugas ou cabelos grisalhos já não são um obstáculo para aparecer na capa de uma revista de moda ou desfilar na passerelle, como foi o caso de maggie smith, que aos 88 anos foi o rosto da campanha da lowe's; a tatuadora apo whang-od, que aos 106 anos se tornou a mulher mais velha a aparecer na capa da vogue; ou helen mirren, que aos 78 anos brilhou na passerelle de paris.

para além dos nomes conhecidos nas artes, vimos também o regresso das top models intemporais dos anos 90, como naomi campbell na alexander mcqueen, linda evangelista na fendi, christy turlington na carolina herrera, ou kate moss na anine-bing. até pamela anderson reaparece num look limpo e sofisticado da proenza-schouler, muito diferente dos dias em que corria pela praia com um fato de banho vermelho minúsculo.
várias outras marcas introduziram modelos com mais de 40 anos, criando um padrão ligeiramente mais diversificado nas suas coleções, sem alterar completamente o padrão dos modelos. 
o que é que estas decisões nos dizem sobre a indústria da moda?
primeiro, que as marcas de alguma forma acordaram para o facto de que as suas clientes são principalmente mulheres maduras que têm capacidade financeira para comprar produtos de luxo, que são bem-sucedidas e que se veem nestas campanhas.
num momento em que a esperança média de vida está no seu máximo histórico e podemos aspirar não só a viver mais tempo, mas também a viver melhor, o envelhecimento tem de ser visto como um processo natural. e estas campanhas ajudam a promover a aceitação da imagem e do corpo das mulheres mais velhas. celebram a sua confiança e mostram que a idade não lhes tirou o estilo.
conseguem também mudar o foco, criando um momento de ruptura numa sociedade centrada na juventude que é visto como uma lufada de ar fresco.
o grande problema é que, mais uma vez, não há diversidade. embora estas campanhas retratem uma imagem positiva do envelhecimento, estão focadas em mulheres brancas. a publicidade de moda precisa urgentemente de abrir espaço para todas as idades, todos os corpos e todas as cores.
cláudia cavaleiro a editora-chefe da editorial CINCO. nascida em 82 em coimbra, é licenciada em filosofia pela universidade de coimbra. apaixonada por livros e podcasts de uma forma geek, está sempre a encontrar algo interessante para investigar. adora sensibilizar para problemas sociais e adora trabalhar na CINCO!
