Entre os séculos XVI e início do XIX, a moda feminina simbolizava o seu papel na sociedade - opressivo. Corpetes, tiras de material rígido (osso, chifre ou madeira) entre duas camadas de tecido, eram uma parte essencial da roupa, criando a desejada cintura estreita. Esta natureza restritiva tinha graves consequências para a saúde, causando desmaios, problemas digestivos, compressão de órgãos ou atrofia dos músculos das costas. Vários médicos tentaram alertar para estes e outros problemas, mas a moda e o costume sobrepuseram-se aos avisos. Por volta de 1850, Amelia Bloomer (sufragista, editora e ativista social) tentou incentivar a reforma do vestuário e introduziu as calças largas ou bloomers, calças soltas usadas por baixo de um vestido até ao joelho. Este novo visual permitia maior conforto e mobilidade e, assim, um estilo de vida mais ativo. Embora tenham sido muito bem recebidas pelas sufragistas, os críticos conservadores atacaram rapidamente estas primeiras calças, ridicularizando-as e tornando-as difíceis de aceitar.

A primeira grande revolução no vestuário ocorreu na década de 1920. A geração jovem queria lutar por mais liberdade pessoal após os anos difíceis da Primeira Guerra Mundial, quando as ideias de dever, sacrifício e bem comum moldaram as suas vidas. O visual da época refletia este desejo de derrubar barreiras: cabelo curto, vestidos curtos, cigarros, cocktails, sensualidade e atrevimento. Ao contrário das sufragistas, as jovens desta geração não tinham interesse na política; a sua luta era pelo valor da individualidade. Houve também uma mudança dramática nos padrões do mercado de trabalho, que aumentou o poder de compra das mulheres. Várias indústrias cresceram com esta mudança, mas a mais importante foi a indústria da moda. Para além de novos vestidos e saias com bainhas curtas, a roupa desportiva e até as calças estavam na moda, tornando esta geração mais livre fisicamente do que qualquer outra na história moderna. Designers de moda como Coco Chanel, Jeanne Lanvin ou Elsa Schiaparelli ajudaram a promover esta mudança revolucionária.
Como muitos outros processos revolucionários, este é feito de avanços e recuos. Os anos 1950 viram um regresso a visuais mais convencionais. Cinturas altas, saias com folhos, saltos altos e batom vermelho marcaram o regresso das mulheres ao lar. Após um período de grande contribuição para o mercado de trabalho devido à Segunda Guerra Mundial, a nova década reverteu este processo.
No entanto, as décadas de 60 e 70 foram marcadas por grandes mudanças sociais e de moda. Mary Quant, que não tinha formação em design ou negócios mas compensava a falta de experiência com instinto, promoveu a primeira grande mudança. Ela sabia o que as jovens da sua geração queriam vestir e, no início dos anos 60, lançou a mini saia até à coxa, nomeada em homenagem ao seu carro favorito.
Esta tendência não foi pacífica, e mesmo no mundo da moda, vários designers criticaram a "vulgaridade" da tendência. Mas isso não impediu os entusiastas de abraçar o conceito. Por exemplo, quando a Dior não apresentou mini saias na passerelle, uma organização chamada "British Society for the Protection of Mini Skirts" saiu às ruas e protestou contra a casa de moda. Alguns dos seus cartazes diziam: "mini saias para sempre" e "não traia a mini saia".

A ascensão meteórica da mini saia coincidiu com o florescente movimento das mulheres da época. A disponibilidade comercial da pílula em 1961 tornou possível a libertação sexual, e a mini saia passou a simbolizar o movimento, sendo usada por líderes feministas como Germaine Greer e Gloria Steinem.
No final dos anos 60, os protestos contra a guerra e o momento do queimar de soutiens prepararam o terreno para uma nova contracultura que lutava contra as normas e as tornava visíveis através das escolhas de moda. O estilo hippie foi uma manifestação pública de convicções internas e lutas públicas.
Os anos 70 são provavelmente a década mais icónica da moda, com muitas das tendências introduzidas a continuar até hoje. A segunda vaga do feminismo deixou a sua marca na moda, não só com a introdução do conceito de power dressing, mas também com o declínio da roupa específica para géneros. Lutas pelos direitos reprodutivos, aborto legalizado, desigualdade salarial, assédio e mais uniram as mulheres. A roupa tinha de ser confortável, prática, mas cheia de personalidade. Vestidos mini e maxi, o famoso wrap dress de Diane von Furstenberg, hot pants, calças flare e macacões, roupa masculina, coletes, chapéus e óculos de sol oversized, e porque a era anunciava uma nova liberdade de expressão, não havia uma única forma de vestir. Com uma onda de lantejoulas, cetim e glamour inegável, foi também uma década fortemente inspirada pela cultura pop.

Não costumamos pensar nos anos 90 como um ponto alto para o feminismo. No entanto, algumas mudanças são inegáveis, e uma delas é a entrada de mais mulheres no mercado de trabalho e em posições de destaque. Não foi uma época marcada por marchas ou manifestações, mas pelo uso de novas competências profissionais para criar associações, ONG e conferências, algo que também se traduziu na moda através do chamado "power dressing", fatos poderosos e conjuntos coordenados em cores, desenhados para serem agressivos.

À medida que a década avançava, os visuais suavizaram-se, assim como as lutas, com a sensação de que muito já tinha sido alcançado. Os anos 2000 foram novamente marcados pela objetificação e sexualização das mulheres.
Por volta de 2017, o movimento #MeToo captou a atenção global e desencadeou um ajuste de contas social, à medida que milhões de vozes femininas denunciaram a violência sexual que sofreram, chamando a atenção para as desigualdades de género e dinâmicas de poder. Já não silenciosas, este coletivo de vozes levou a consequências reais que repercutiram pelo mundo: CEOs foram despedidos e figuras públicas responsabilizadas.

Em 2019, em demonstração de apoio ao direito das mulheres de controlar os seus corpos e imagem corporal, as passerelles, tapetes vermelhos e lojas de rua da Saint Laurent, Valentino, Helmut Lang e Balmain foram inundadas com estilos de lingerie e tops transparentes. É o nosso corpo, e vestir o que queremos é a máxima demonstração de empoderamento.
Cláudia Cavaleiro, editora-chefe do editorial CINCO. Nascida em 82 em Coimbra, é licenciada em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Apaixonada por livros e podcasts de uma forma geek, está sempre a encontrar algo interessante para pesquisar. Adora sensibilizar para problemas sociais e adora trabalhar na CINCO!
